domingo, 15 de março de 2015

Em quantas camas se deita o frio quando a chuva rega o ego da carne por apodrecer? Coubesse este impulso nalguma artéria, ou que ao menos o coração ilustrasse justa causa para esta orgia divina, mas fomos feitos para ser bestas de carne que acreditam em humanidade. São quatro da manhã e uma puta pergunta à lua de que cor é a morte - talvez negros sejam - andam todos a procurar buracos para exercer uma fé roubada dos livros que odeiam os Homens. E a puta não saberá de poesia enquanto não conhecer o véu que vai camuflando a estranha fórmula do sentido por existir - que não se extinga a besta. A puta pergunta ao vento se a pode levar para onde a carne não apodrece e um gato atravessa para o seu lado da rua, a puta explica que só procura um buraco para a fé, mas acaba por ter de correr até que o candelabro da hipocrisia faça o animal recuar. Uns cães famintos lutavam por um pedaço de lixo e a puta disse: Se é para se comerem uns aos outros, ao menos que haja penetração. Amar o quê? Qualquer coisa que não apodreça. Mas diz que sabe bem deixar a razão nos lençóis de uma cama qualquer, onde é que está o raio do meu whisky? A dar corda a um carrossel de ilustrações frustradas de quem tem de ser o que é sem poder ser outra coisa, pudesse a razão não ter adormecido. E nem o amontoado de livros soube explicar o desentendimento que nos deixa levar pelo amor das coisas mortas agarradas ao peito que embalava o sono, que afastava o pesadelo retórico das questões a que sacrifico a tua, a minha sina nas barcas dos pensadores mercenários. E na valsa violenta dos ismos desta vida rendo-me ao prefácio antigo dos ideais de que já nem sei de cor. Ah, a puta!? Embebedou-se de amores no rio, tragicomédia com hilariante salto final para fazer rir os deuses de uma ponte de obituários regulares. Mas amai-vos uns aos outros e procriai a comédia eterna. O amor é uma puta a cair ao rio.